O editor-chefe, Dr. Izzat Al-Jamal, escreve: O Irã à beira do fogo… e o mundo diante de um momento que pode mudar a História

O Oriente Médio não vive uma tensão passageira, mas enfrenta um momento decisivo capaz de redesenhar os equilíbrios de poder por décadas. A escalada política, a linguagem de ameaças mútuas e os movimentos militares acelerados indicam que o confronto com o Irã deixou de ser uma hipótese distante e passou a ser um cenário seriamente discutido nos bastidores das capitais de decisão.
O erro fatal é acreditar que uma guerra futura poderia ser contida ou limitada. Um confronto com o Irã — se ocorrer — não será uma guerra convencional, mas um terremoto geopolítico de amplo impacto.

O Irã não é apenas um alvo militar… mas um nó em um conflito internacional
Desde a Revolução Islâmica, o Irã vive em confronto constante com os Estados Unidos e seus aliados. O conflito nunca se limitou ao programa nuclear ou aos mísseis, mas à posição do Irã na equação da influência regional.
O Irã representa uma potência que se recusa a integrar a ordem internacional segundo as condições ocidentais e apoia atores que se opõem à influência americana em diversos cenários. Por isso, sofreu sanções severas, isolamento político e pressões estratégicas contínuas.
A realidade mais profunda é que o conflito com o Irã deixou de ser sobre o comportamento de um Estado e passou a ser sobre o formato dos equilíbrios regionais e quem detém a decisão na região.
Uma guerra contra o Irã não será como nenhuma outra
Qualquer confronto amplo com Teerã não será um ataque rápido que termina em poucos dias.
O Irã possui:
- grande profundidade geográfica
- capacidades avançadas de mísseis
- instrumentos de dissuasão não convencionais
- uma rede de influência regional capaz de abrir múltiplas frentes
Isso significa que a guerra ultrapassaria suas fronteiras, atingindo bases militares, rotas marítimas e mercados de energia. O impacto seria regional e global, mesmo que o confronto comece com um ataque limitado.
A verdadeira preocupação em alguns círculos militares ocidentais não é iniciar a guerra, mas a incapacidade de controlar seu curso após o início.

O cenário mais perigoso: romper as linhas nucleares
O maior risco da escalada é a possibilidade de entrar em um novo nível de dissuasão, no qual o dossiê nuclear deixa o campo político e passa a ser um instrumento de pressão militar direta.
Isso não significa necessariamente o uso de uma arma nuclear, mas a introdução de materiais nucleares enriquecidos em um contexto militar ou de ameaça estratégica direta seria vista mundialmente como a quebra de uma linha vermelha histórica.
Se isso ocorrer, o mundo entrará em uma fase de:
- mobilização internacional sem precedentes
- enormes pressões políticas
- corrida armamentista regional
- intervenções ampliadas de grandes potências
Em outras palavras, qualquer aproximação dessa linha transformará o confronto de uma guerra regional em uma grande crise internacional.

De Teerã à Ucrânia… uma ligação pouco declarada
Um enfraquecimento radical do Irã não afetará apenas o Oriente Médio, mas também o equilíbrio de poder global.
O Irã faz parte de uma rede de equilíbrio que enfrenta a hegemonia ocidental em diversos cenários. Neutralizá-lo ou enfraquecê-lo afetará os cálculos de Moscou e Pequim e os equilíbrios que se estendem até a guerra na Ucrânia.
Assim, o confronto com Teerã deixa de ser regional e passa a integrar um conflito internacional mais amplo sobre a forma do futuro sistema mundial.

Washington entre poder e consequências
Os Estados Unidos possuem clara superioridade militar, mas o problema não está na capacidade de atacar, e sim na capacidade de controlar os resultados.
As experiências das últimas décadas mostraram que derrubar equilíbrios é muito mais fácil do que construir uma nova estabilidade.
Um ataque amplo ao Irã pode alcançar um objetivo tático, mas abriria portas para um caos estratégico prolongado:
- instabilidade nos mercados de energia
- tensões marítimas
- escalada de frentes indiretas
- aumento da polarização internacional
China e Rússia… cálculos silenciosos
As outras grandes potências não são meras espectadoras.
A Rússia vê o Irã como um parceiro no equilíbrio da pressão ocidental.
A China enxerga a região como uma artéria energética e um corredor estratégico para seus projetos globais.
Nenhuma das duas deseja uma guerra total, mas também não quer ver o Irã colapsar completamente dentro da órbita ocidental. Essa complexidade torna qualquer confronto suscetível à internacionalização indireta do conflito.
Os povos… os perdedores de sempre
Em meio a esses grandes cálculos, permanece a verdade mais simples e dolorosa:
os povos são os que pagam o preço.
Uma nova guerra ampla significa:
- novas ondas de refugiados
- economias esgotadas
- gerações crescendo sob medo e instabilidade
As populações de Teerã, Bagdá, Beirute, Damasco e Gaza não buscam grandes batalhas, mas uma vida normal, estabilidade e oportunidades para o futuro.
O maior temor: e se o Irã cair?
Além da linguagem das armas, surge uma pergunta inevitável para os tomadores de decisão:
se o Irã colapsar ou sofrer uma mudança radical pela força, será apenas uma transformação política ou o início de uma reconfiguração mais ampla da identidade e dos equilíbrios da região?
A preocupação não é apenas emocional, mas estratégica:
- o colapso do Irã criaria um enorme vazio estratégico
- abriria espaço para múltiplas intervenções
- poderia levar a uma redistribuição desequilibrada de influência
A história mostra que a queda de um Estado central na região raramente gera estabilidade, mas sim um caos prolongado que afeta o Golfo, o Iraque, a Síria e até os dossiês da Palestina e de Jerusalém.

Um conflito de influência, não de fé
É importante distinguir o discurso religioso da realidade geopolítica. As grandes potências se movem por interesses estratégicos: energia, rotas, equilíbrio militar.
O uso do discurso religioso pode criar a impressão de conflito sectário, mas a realidade internacional é outra: a disputa é por influência, recursos e liderança regional.
Jerusalém e a Palestina… no centro da consciência coletiva
Qualquer grande mudança no equilíbrio regional pode afetar Jerusalém e a Palestina, que ocupam um lugar central na consciência árabe e islâmica. O medo da perda de direitos históricos ou da alteração do status quo dos locais sagrados aumenta a sensibilidade diante de grandes transformações.
Entre a lógica da força e a lógica da sabedoria
O poder militar pode impor fatos, mas não constrói uma paz duradoura.
Guerras iniciadas com confiança excessiva muitas vezes terminam com resultados inesperados.
A região não precisa de mais demonstrações de força, mas de razão e prudência para evitar um confronto que pode incendiar todo o Oriente Médio.
Conclusão: um momento histórico de decisão
O confronto com o Irã, especialmente se o dossiê nuclear entrar nos cálculos, não será apenas um choque entre dois Estados, mas um ponto de virada capaz de redesenhar a segurança regional e global.

O verdadeiro desafio para os líderes hoje não é iniciar uma guerra, mas evitar uma guerra que todos sabem como começa… e ninguém sabe como termina.
O Oriente Médio está diante de dois caminhos:
- o caminho da escalada aberta
- o caminho de um equilíbrio difícil que dê aos povos a chance de viver
A diferença entre os dois… é uma decisão.


