O editor-chefe, Dr. Izzat Al-Jamal, escreve: O rei Abdullah II: a Jordânia está transformando seu território para proteger Israel?

Hoje, a Jordânia parece desempenhar o papel de guardião invisível de Israel. Todos os seus arranjos de segurança e a cooperação militar e de inteligência são vistos como mecanismos que garantem prioritariamente a proteção dos interesses israelenses, antes mesmo dos interesses da Jordânia e de seu povo.
Nesse contexto, surge a pergunta mais dolorosa:
a decisão jordaniana em qualquer confronto regional serve realmente aos interesses do país ou faz parte de cálculos de potências externas maiores?

Não se trata de lealdade ou hostilidade, mas de um resultado concreto: o território jordaniano e suas posições estratégicas são utilizados para garantir a segurança de outro ator, enquanto a Jordânia assume a maior parte dos riscos potenciais para suas fronteiras e sua segurança interna.
A região está à beira de uma nova escalada militar. Desta vez, porém, os países do Golfo não parecem ser o ponto de partida, como ocorreu em conflitos anteriores. Indicadores políticos e militares sugerem que a Jordânia pode se encontrar no centro da equação, não como mediadora ou fator de contenção, mas como uma base avançada em um conflito regional capaz de alterar profundamente o Oriente Médio.
Por que a Jordânia?
Diante da relutância de alguns países do Golfo em se envolver diretamente em um ataque militar contra o Irã, a Jordânia surge como uma alternativa geográfica e militar. A presença de bases militares conjuntas e a cooperação de longa data com os Estados Unidos e o Reino Unido tornam o reino um local logístico adequado para qualquer movimento militar potencial.
Mas a questão mais perigosa não é militar… é política:
a Jordânia consegue suportar o custo de estar na linha de frente do fogo?
Os riscos para a Jordânia

Qualquer participação — direta ou indireta — em uma ação militar contra o Irã expõe a Jordânia a cenários graves:
- tornar-se alvo de retaliação iraniana
- desestabilização interna
- envolvimento em um conflito que supera sua capacidade geopolítica
- abertura para novos arranjos regionais que podem não favorecê-la
Quem se beneficia?
Ao analisar os resultados estratégicos do enfraquecimento ou da queda do regime iraniano, fica claro que:
- os países do Golfo temem o caos mais do que desejam a guerra
- a Jordânia não tem margem para se envolver em um conflito regional aberto
- os Estados Unidos podem alterar prioridades conforme as administrações
O único ator que obteria um ganho estratégico claro seria Israel, que veria no enfraquecimento do Irã o fim da maior ameaça militar direta contra si.
O cenário mais perigoso
Se a região se envolver em uma guerra de grande escala, novas realidades podem ser impostas no território palestino, aproveitando-se do caos regional. Isso reacende temores sobre antigos projetos de reconfiguração demográfica e política, colocando a Jordânia diante de um desafio existencial devido à sua localização, composição populacional e papel histórico na questão palestina.
Os Estados Unidos mantêm uma vasta rede de bases e facilidades militares no Golfo e no Oriente Médio, tornando qualquer confronto com o Irã extremamente arriscado devido à possibilidade de ataques diretos a essas instalações. Essa realidade explica a cautela de alguns países do Golfo.
Surge então outra dimensão: a busca por arenas menos expostas ou politicamente menos custosas para iniciar qualquer ação militar. Nesse contexto, a Jordânia aparece não por escolha própria, mas por sua geografia e alianças de segurança, colocando-a — queira ou não — no centro de cálculos que não controla plenamente.

Nas grandes guerras, a catástrofe não começa com o som dos mísseis, mas com decisões tomadas a portas fechadas. Países convencem a si mesmos de que o perigo está distante, de que são apenas um “corredor” ou “apoio logístico”. Mas a história ensina algo claro:
quem abre seu território para uma guerra que não controla… paga o preço primeiro.
A Jordânia no centro de uma equação perigosa
Hoje, o nome da Jordânia aparece em análises de centros decisórios como um elo geográfico conveniente em qualquer escalada potencial contra o Irã, especialmente diante da cautela dos países do Golfo.
O problema não é apenas militar… é de soberania.
Quando um Estado passa a integrar arranjos de segurança que não controla plenamente, deixa de ser um ator soberano para tornar-se parte de cálculos alheios.
A pressão silenciosa: água e política
A relação entre Jordânia e Israel ultrapassou acordos de paz tradicionais e passou a incluir setores vitais como água e energia. Essa interdependência, embora pareça técnica, torna-se um instrumento de pressão estratégica em momentos de crise.
Quando a segurança hídrica depende de acordos com um ator militarmente dominante, a decisão soberana torna-se mais complexa e a liberdade política mais limitada do que aparenta nos discursos oficiais.
Quem paga o preço… e quem colhe os ganhos?
Qualquer enfraquecimento do Irã criará um grande vazio estratégico.
Os países do Golfo temem o caos e reações imprevisíveis.
A Jordânia não pode se dar ao luxo de um conflito prolongado em suas fronteiras.
Mas há um único ator que vê nesse cenário um ganho estratégico líquido:
eliminar a maior ameaça militar direta sem que seu território seja o primeiro alvo de retaliação.
Aqui reside a verdadeira preocupação:
alguns pagam o custo da confrontação… enquanto outros colhem seus resultados.

O cenário final: o caos como cobertura para a reorganização
A história regional mostra que grandes guerras não mudam apenas frentes militares, mas abrem caminho para impor novas realidades políticas. Em tempos de guerra, projetos antes impensáveis tornam-se possíveis.
Para a Jordânia, dada sua posição geográfica, demografia e papel no dossiê palestino, qualquer mudança profunda pode resultar em pressões diretas ou em arranjos impostos como fatos consumados.
O verdadeiro perigo não está no avião que decola,
nem no míssil que cai,
mas no momento em que os Estados percebem que perderam o controle de seu lugar na equação.
As guerras começam com planos militares…
mas terminam com mudanças de mapas, influências e papéis.
E então a pergunta não será: quem venceu a batalha?
mas: quem perdeu sua posição sem disparar um único tiro?


